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Cavaleiros Hospitalários de S. João Batista Jerusalém Versão para impressão Enviar por E-mail
Terça, 21 Outubro 2008 11:26

 A génese: A Ordem de S. João de Jerusalém fundada mesmo antes da tomada desta cidade pelos exércitos da Primeira Cruzada, corria o ano de 1099, começou por ser uma comunidade monástica que administrava um hospício-enfermaria para os peregrinos que se deslocavam à Terra Santa e, segundo um monge chamado de Bernardo, já existia em 870 com a designação de hospital para latinos, isto por oposição aos peregrinos gregos. 

A designação acaba por ser genérica e pouco elucidativa pois nessa época vários povos, do Mundo Mediterrânico, mantinham em Jerusalém diferentes hospícios. Por informações avulso, sabemos ter existido um hospital com a invocação de S. João, mas da Alexandria, fundado e mantido por amalfitanos (Amalfi era, à época, uma poderosa cidade republica do Sul de Itália). 

Esta instituição, pelo que sabemos, observava as regras Beneditinas, então com grande implementação entre a cristandade. Os frades vestiam de negro e usavam a cruz de Amalfi, a mesma que figura numa moeda desta da cidade-república cunhada entre os séculos X e XII. Assim, é credível que a orientação do beato Gerardo, com vista à reforma e sequente independência em relação às canónicas beneditinas, instaurando uma Ordem mais formal e com regra de S. Agostinho, por Bula Papal datada de 15 de Fevereiro de 1113, respondeu, por um lado, às novas realidades politicas, sociais e militares de Jerusalém e, por outro lado, ao centralismo político e religioso Papal.

Após a fundação, pelos cruzados, do Reino de Jerusalém, a Ordem dos Hospitalários, já com o seu primeiro Mestre, Frei Raymonde du Puy, também assume funções militares, com a finalidade de assegurar a protecção dos enfermos e peregrinos nesses “novos” territórios da cristandade. Esta nova vertente, a de Ordem de Cavalaria, impôs que os Cavaleiros fossem religiosos sujeitos aos três votos: Obediência, Castidade e Pobreza. A Canónica de S. João de Jerusalém tem, então, um estatuto de: Persona Mixta, isto é: Ordem Religiosa-Militar. Ao primeiro mestre da Ordem, Raymond du Puy, se deve as primeiras regras e o elemento signáculo (ou redefinição deste) mais conhecido: a Cruz Branca Octogonal, vulgo Cruz de Malta.

Com a queda de Acre, o último bastião da cristandade na Terra Santa, em 1291, os Cavaleiros de São João de Jerusalém encontram refúgio em Chipre. Só voltaram a ter domínio territorial com a tomada e ocupação da ilha de Rodes, em 1310, sob o comando do Grão-Mestre Frei Foulques de Villaret. A Ilha de Rodes converteu-se num baluarte da Cristandade no Mediterrâneo Oriental, e os cavaleiros de São João passam a ser conhecidos pelos Cavaleiros de Rodes. A defesa militar da ilha impunha, por consequência, a existência de uma força naval. Razão pela qual a Ordem equipou-se com uma poderosa frota; patrulhou as águas do Mediterrâneo Oriental e participou nas batalhas mais importantes contra o poderio naval e terrestre, em crescendo, dos Muçulmanos, para além do apoio logístico prestado nas Cruzadas da Síria e Egipto e, sobretudo na ajuda ao reino cristão da Arménia.

Em 1522, na véspera de Natal, os Cavaleiros são obrigados a capitular e, a 1 de Janeiro de 1523, abandonam a ilha de Rodes com honras militares. Nos sete anos seguintes a Ordem do Hospital foi soberana mas sem domínio territorial. O Imperador Carlos V, na qualidade de Rei da Sicília, concedeu, como feudo soberano as ilhas de Malta, Gozo e Comino, bem como Tripoli no norte de África, aos Cavaleiros de São João do Hospital que, a 26 de Outubro de 1530 tomam posse com aprovação do Papa Clemente VII. A guerra prosseguiu. Os turcos atacam Malta, põem cerco em1565 (de 18 de Maio a 8 de Setembro) mas são derrotados pela brilhante estratégia do Grão-Mestre Frei Jean de la Vallete, em memória do qual deu nome à capital da Ilha de Malta: La Valletta. Apesar do engrandecimento em títulos e poderio naval, a Ordem de Malta voltou a perder o seu território. Agora para França pois em 1798 Napoleão Bonaparte, durante a sua campanha contra o Egipto, ocupou a ilha de Malta e expulsou a Ordem. Depois de vários anos em sedes provisórios, sucessivamente Messina, Catânia e Ferrara; finalmente em Roma desde 1834 até a actualidade.

Em Portugal: a história da Ordem Hospitalária em Portugal está, na actualidade, um pouco por fazer, pois grande parte da documentação da Ordem foi destruída por acção militar ocorrida em 1662, quando o exército espanhol, comandado por D. João de Áustria, arrasou a Vila do Crato e os arquivos da Ordem. Respigando documentação sobrevivente sabe-se que a Ordem, em 1220, recebeu doação da Rainha D. Teresa uma vasta propriedade entre Oliveira e Bobadela. A Toponímia Local consagra o facto Oliveira do Hospital; entre 1222 e 1228 D. Teresa cede à Ordem a sua primeira casa capitular: o Mosteiro de Leça do Bailio; a outorga, em 1140, de uma carta de couto confirma a sua importância nos primórdios a Nacionalidade, tanto mais que o primeiro Prior da Ordem em Portugal foi o irmão do Rei.

A participação, activa, no esforço militar e povoador na Reconquista engrandece a Ordem do Hospital, como acontece com outras ordens igualmente participantes. Nas terras de Ucrate doadas por Sancho II, em 1232, à Ordem foi edificado o complexo monumental do Mosteiro Flor da Rosa, por ordem expressa de D. Álvaro Gonçalves Pereira. Edificação é iniciada no século XIV, incluiu várias construções anteriores, de várias épocas e estilos arquitectónicos. Por volta do ano 1341 passa a ser a Casa-mãe da Ordem e o seu prior a usar o título de: Prior do Crato ao invés de Prior do Hospital. Este facto denota, acima de tudo uma enorme vitalidade económica da Ordem que por esta altura reunia 23 comendas, com terras, termos e coutos cujo o rendimento anual para o priorado, no século XIV, era de 45 contos de rubis, uma fortuna. As comendas enquanto unidades administrativas dirigidas pela figura do comendador, surgiram por necessidade de gerência das múltiplas possessões que os hospitalários detinham no país. Ao comendador cabia não só a responsabilidade de zelar pelo bom funcionamento das propriedades que lhe estavam confiadas, por inerência ao cargo como também a obrigação de manter a correcção da comunidade (membros da ordem e paroquianos) na sua vivência espiritual, garantindo o regular funcionamento dos ofícios e outros serviços religiosos.


O Bailio ou Comenda de São Brás e Santa Luzia de Lisboa: das vinte e três comendas da Ordem, a de São Brás e Santa Luzia, em Lisboa, foi uma das mais importantes, do ponto de vista económico, como do ponto de vista histórico-político, levando até o Frei Lucas de Santa Catarina, nas suas Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta, a considerá-la de Cabeça do Priorado. Bondade entusiástica do Frei Lucas, por quanto a Comenda, apesar de importante, nunca foi Priorado.

Que bens detinham, então, os Cavaleiros de S. João no termo e em Lisboa? Por uma Inquirição Régia de Afonso II, datada de 1220, sabemos que a Ordem, e entre as outras ordens militares, era a que detinha o maior número de propriedades, quer rústicas, quer urbanas, no termo e cidade de Lisboa. No território intramuros da cidade, limitado pela cerca moura, a Ordem era detentora de umas casas e capela junto à Porta do Sol, que guarneciam militarmente. Nestas casas e capela se constituiu a sede conventual da Ordem para a região de Lisboa e Sul de Portugal ao tempo da Reconquista, e, desta se criou o Bailio ou Comenda de São Brás e Santa Luzia à qual andavam sujeitos todos os bens da Ordem na Cidade de Lisboa, no seu termo, como ainda as localizadas no termo de Sintra. Sabemos que, em 1551 a Comenda rendia, ao seu detentor, 1380 cruzados. Tinha capelão perpétuo, com renda e ofertas de 50 cruzados. A Juntar a tudo isso os rendimentos das duas confrarias existentes São Brás e Santa Luzia, de 100 cruzados.

A par da sede conventual os hospitalários detinham outros bens na cidade: na freguesia de Santiago duas casas; na freguesia de São Bartolomeu uma casa e outra me são Martinho. Na parte extra-muros: uma herdade junto a São Vicente logo a partir de 1172; na freguesia de São Tomé uma casa e tenda; uma adega em Santa Maria Madalena; casa lagares de vinho e de azeite na freguesia de Santo Estêvão; uma vinha e figueiras a S. Vicente e um forno de pão, na freguesia de S. Salvador. Nos arredores mais chegados: uma almoinha em S. Lazaro e uma vinha em Arroios. De todas estas propriedades não se conhecem notícias anteriores a 1220.

Passando ao termo de Lisboa, propriamente dito, os bens dos freires do Hospital distribuíam-se por vários lugares, bastante dispersos: Lumiar duas vinhas (Alcotim e Longa); Palma uma vinha (os bacelos de São Brás); Benafarzom, junto a Alvalade três vinhas; Campolide duas vinhas, precisamente em Campolide existiam diversos foros à Ordem. Na rua Sol ao Rato ainda são visíveis três lápides, do século XVIII, com a cruz de Malta e a inscrição Campolide/Foro n.º; Alcântara uma boa granja com dois moinhos e suas marinhas; Marvila e Olivais vários olivais; Água Livre, em Belas, uma herdade e casal; Louro, em Belas, um casal; Falagueira, na Amadora ou Porcalhota, um casal; Odivelas uma granja com três casais. Algumas destas propriedades já faziam parte da Ordem em 1190.

Reportamos, agora, seguindo Frei Lucas de Santa Catarina, ao Casal de São Brás (cujo território é, na actualidade, uma imensa urbe constituída como freguesia com o mesmo teónimo) e que nos diz o seguinte: «Em a freguesia de Benfica, além de outros Prazos, cuja origem pode ser posterior, tem também a Ordem ainda hoje um casal, que está por cima do lugar da Falagueira, chamado de São Brás, com casas, pomar, vinhas, terras e fontes; foreiro em quatro moios e meio de trigo [aprox. 3510 litros/kg.], um moio de cevada [780 l./kg.], um carneiro e seis galinhas; havendo dele várias pertenças, e subenfiteuticações [sic], que rendem 240 reis, ou uma galinha, e outra 200 reis, ou outra galinha. (…) Mais se conserva foreira uma terra, com seu moinho de vento, no alto do Lugar da Falagueira, que se desmembrou do casal do Louro» (SANTA CATARINA, 1734: 269/277).

Porém a influência dos Cavaleiros de São João de Jerusalém na Toponímia Local não se restringe ao teónimo de São Brás. Um outro topónimo, igualmente antigo e histórico e, na actualidade, caído um pouco no esquecimento colectivo é o topónimo de: Porcalhota. Intimamente ligado à Ordem, e a partir do levantamento que se tem vindo a efectuar, temos conhecimento de alguns dos Comendadores e Bailios que se sabem terem tido esta Comenda ou Bailio de São Brás. Com efeito entre os três primeiros comendadores já referenciados é mencionado um tal Frei Martim Porcalho. Este pormenor toponímico, ou melhor a possibilidade de o micro-topónimo Porcalhota ter a sua origem no antroponímico de um comendador da Ordem não é caso único. Era corrente nas grandes herdades, pertencentes às canónicas, a cedência ou mesmo desanexação de parcelas de terrenos, em favorecimento próprio ou familiar, por parte dos Priores ou Comendadores. Voltamos a encontrar o onomástico Porcalho no século XV, no cavaleiro Vasco Porcalho, Comendador da Ordem de Aviz. Este cavaleiro tem uma atitude assaz curiosa aquando da crise politico-dinástica de 1383-85, oscilando entre o apoio ao Mestre de Avis e o apoio a D. Biatriz. Acabando por se inclinar para D. Biatriz, de resto como aconteceu com a Ordem de São João do Hospital e muitos outros ilustres cavaleiros na época.

Por Ruy Oliveira

Bibliografia Base:

OLIVEIRA, Cristóvão Rodrigues de, «Lisboa em 1551 Sumário»,ed. Livros Horizonte, apresentação e notas de José Felicidade Alves, 1987.

Ordem Soberana e Militar de Malta, ed. da O.S.M.M. de 1998.

FILERMO, Revista da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, volumes 7-8, Porto 1999.

FIGUEIREDO, Jozé Anastácio de, «Nova História da Militar Ordem de Malta, e dos Senhores Grão- Priores della em Portugal», Lisboa 1800.

CATARINA, Frei Lucas de Santa, «Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta», Lisboa 1734, parágrafo XCIII, pags. 269-277.

COSTA, Paula, «A ordem Militar do Hospital em Portugal: dos Finais da Idade média à Modernidade», in: Militarium Ordinum Anacleta, n.º ¾, ed. Fundação Eng. António de Almeida, Porto 1999/2000.

IGREJA de VERA CRUZ de MARMELAR, ed. Câmara Municipal de Portel, 2006.