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| Entrevista com António Augusto Sales |
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| Domingo, 06 Dezembro 2009 21:00 |
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António Sales, autor duma biografia de António Botto,bem como “A Primeira Manhã”, contos, (1964;) “Uma longa e estranha pausa” romance, (1970) “Barcelona, cidade na Catalunha” crónicas, (1972), ou ainda “Requiem pelos fieis defuntos”(1976) e “Corpo Enigmático”(1993), entre outros, nasceu em Torres Vedras em 1936 e veio viver para o Algueirão em 1954.Cometeu um erro na juventude que infelizmente nunca mais o largou:levar a vida a sério.Na sequência da sua participação no encontro literário da Alagamares de 26 de Novembro publicamos uma entrevista com o autor. ![]() O António Sales vive desde 1954 no Algueirão.Que memorias guarda desse tempo e o que mais mudou nessa zona de Sintra? A tranquilidade de uma terra com poucos habitantes onde nos deslocávamos de dia e de noite a pé com toda a segurança. Havia um cinema (Chaby) e hoje não há; na vila de Sintra havia cinema (Carlos Manuel) e hoje não há. Queres cinema vai ao Cacém ou à Beloura. Era tudo próximo com menos gente, menos casas, menos carros, piores comboios, piores acessos, pior assistência na saúde (nem havia praticamente). Trabalhava na editora Europa-América e alguns de nós, que aqui vivíamos, fazíamos no Fino Gosto uma tertúlia de café. Ali conheci o muito jovem Mega Ferreira que também aparecia. A tapada das Mercês era verde, hoje é um obsceno espectáculo de betão. Como se definiria em termos literários? Um escritor que procurou a sua expressão na realidade social e na sua própria realidade humano. Um escritor sem carreira, sem estratégia definida, escrevendo por prazer e, por isso, preguiçoso muitas vezes. Conheceu alguns vultos da cultura portuguesa pessoalmente.Quer recordar alguns? Um dos primeiros foi Ferreira de Castro com quem me encontrava algumas vezes na pastelaria Veneza na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Naquela altura a sua projecção era imensa mas tratava os jovens literatos com particular carinho. Com o Fernando Namora vim a criar alguma intimidade por altura do romance “Domingo à Tarde”, depois continuada na fase já dramática da sua vida. A contrariar a angústia frequente do Namora havia a boa disposição do Alexandre O’Neill. Os almoços com ele eram um divertimento gastronómico e intelectual dado o seu humor corrosivo e a sua surpreendente veia criativa. Poderia citar o Joaquim Namorado, o Cardoso Pires, o Augusto Abelaira, a Maria Teresa Horta, a Graça Varela Cid. Mas não devo esquecer três grandes vultos, já falecidos, da literatura catalã com quem me encontrei diversas vezes: Miquel Lladó, Félix Cucurull e Miguel Pedrolo, este último com uma extensa e importante obra totalmente editada em catalão, no tempo em que esta língua estava proibida por Franco em Espanha. O António Sales escreveu uma biografia de António Botto.Porquê Botto e que privação teve com ele? “Conheci” o António Botto quando tinha os meus 15/16 anos (1951-52) ao ler uma edição das “Canções” que me veio para às mãos. Logo em seguida as peças de teatro “António” e “Alfama”. A sua poesia tinha a musicalidade da oralidade e traduzia os dramas da vida, retratava figuras do povo e evocava um conjunto de sentimentos que a poesia portuguesa não estava habituada a tratar. Botto era diferente (eu não conhecia Pessoa), e embora eu conhecesse superficialmente José Régio o poeta das “Canções” tinha a coragem de expressar a sua condição homossexual, fazia o elogio do corpo masculino, exaltava a paixão sexual pelo outro. O que fui lendo ao longo dos anos e anotando confirmou-me as qualidades e defeitos de escritor e homem. Mentiroso, irreverente, megalómano ganhou muitos inimigos e jamais conseguiu escapar aos estigmas nem depois de morto. Escrevi a biografia na altura dos 100 anos do seu nascimento, mas poderia ter escrito um romance sobre esse poeta homossexual confesso que viveu em comum grande parte da sua vida, até â morte, com a mulher que o amou. Há escritores ou poetas sintrenses que gostasse de ver particularmente recordados? Oliva Guerra; Francisco Costa, Joaquim Nunes Claro, João Rodil e outros que os há, naturalmente. Mas não vamos regionalizar a cultura. Há muitos que por este concelho passaram (Vergílio Ferreira, Vítor Serrão) e cuja obra podia preencher sessões de inter acção com o público. Está a escrever algo ou tem alguma obra em perspectiva? Procurar fazer uma 2ª edição do António Botto agora com um amplo desenvolvimento da sua vida no Brasil até à sua morte. Tenho em tosco uma novela que coloca um visitante ao Chalé da Condessa no centro de um encontro entre o romantismo e o misticismo. Qual deverá ser o papel de associações como a Alagamares na promoção dos valores locais? Divulgação: participação desses valores na sociedade local em debates e conversas. Mas não falo só em Sintra como noutras localidades do concelho. Acção: tomar iniciativas como a do 1º Encontro da Escritores Sintrenses. Onde poderemos adquirir os seus livros? Qual o define melhor como escritor? Corpo Enigmático, Uma Mulher no Papel, António Botto Real e Imaginário, Os Guardadores do Tempo. Todos na Livraria Dharma – Praceta dos Lírios, 4 – 2725-359 Mem Martins–tel/fax 21 920 968 – tlm 96 604 66 82 e-mail: Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
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