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| Mário Dionísio em Galamares, por Eduarda Dionísio |
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| Quinta, 10 Dezembro 2009 08:13 |
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Figura relevante da vida cultural portuguesa do séc XX,Mário Dionísio passou alguns anos por Galamares, onde teve casa e frequentou assiduamente a "esplanada do Alcino", hoje sede da Alagamares.Revivendo esses tempos, sua filha, e presidente do Centro Mário Dionísio, a escritora e dramaturga Eduarda Dionísio concedeu-nos uma entrevista recheada de memórias dum tempo irrepetível. Pertenceu aos grupos de teatro da Faculdade de Letras e do Ateneu Cooperativo (1969-70). Fundou o grupo «Contra Regra» (1983) e colaborou com «O Bando» e o «Teatro da Cornucópia». Intensa actividade cívica, social e política: entre muitas outras, foi dirigente sindical (SPGL, 1977) e foi até 2004 a grande dinamizadora da Associação Cultural "Abril em Maio". Trabalhou no teatro universitário, amador e profissional (Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, Ateneu Cooperativo de Lisboa, Cornucópia, O Bando e Contra-Regra, que fundou) como actriz, cenógrafa, dramaturgista, tradutora e autora de textos. Tem vários livros publicados, entre romances, manuais, ensaios e peças de teatro (o mais recente é T.M. - PROVAS DE CONTACTO) e artigos dispersos por diversas publicações. Foi co-fundadora do jornal CRÍTICA (1971-1972) e, em 1994, da associação cultural ABRIL EM MAIO. Para o teatro, traduziu (entre outros e normalmente em colaboração) textos de Shakespeare, Schnitzler, Brecht, Müller e Jon Fosse (SONHO DE OUTONO, para os Artistas Unidos).
ALAGAMARES(A)- O pai da Eduarda, Mário Dionísio passou temporadas em Galamares. Pode precisar em que altura e como isso aconteceu? EDUARDA DIONÍSIO(ED)-A altura posso precisar, porque há no espólio de Mário Dionísio fotografias e textos datados que falam do paraíso que era para ele Galamares: entre 1953 e 1957. Andava o meu pai às voltas com a «A Paleta e Mundo», obra em fascículos, cujo primeiro volume acabou de ser publicado em 1956, e o segundo volume em 1962. Portanto, foi entre os meus 7 e os meus 11 anos, sem que eu desse conta de muita coisa. Chegávamos lá, uma longa viagem, nas carreiras da Sintra-Atlântico. Nas férias de verão sempre, nesses cinco anos da minha infância, nalgumas da Páscoa e aos fins de semana de qualquer estação, isso nos dois últimos anos, porque entretanto os meus pais tinham alugado uma casa «ao ano», como se dizia, a casinha então isolada do Sr. José da Quinta, que vivia nas traseiras, ao fundo de uma estrada escalavrada que ia da linha do eléctrico lá para cima, na curva onde se vendiam as belas «nozes douradas de Galamares»… Começámos por ficar na Pensão Mariana, o «ferro eléctrico», que era mais barata do que as «Caves de S. Martinho» mais conhecidas por «café do Sr. Alcino», onde é hoje a sede da Alagamares. Amigos dos meus pais, que com eles iam lá passar as férias «grandes», ficavam noutras pensões. Lembro-me da Pensão Maria Duarte e da Pensão Moderna. Havia muitas mais. Não sei exactamente como foram lá parar. Talvez através de amigos que já lá tinham casas alugadas «ao ano» – o José Gomes Ferreira, o Rui Grácio, os dois quase à entrada de Monserrate – ou outros com casa própria, parece-me, o Roberto Nobre (rente à linha do eléctrico à entrada de Galamares quando se vem de Sintra). E, por perto, havia outros amigos: o Keil do Amaral, no Rodízio – uma casinha pequenina no meio do pinhal, projectada por ele, a casa dos meus sonhos durante muitos anos – , o Castro Rodrigues, nas Azenhas do Mar, onde quase nasceu, e outros… que acabavam por se juntar muitas vezes durante as férias, ou algumas.
Mário Dionísio no pinhal,em Galamares ED-Lembro-me do pinhal todas as tardes, com amigos dos meus pais, alguns com filhos da minha idade, dos «hamacs» de lona presos às árvores com nós especiais e pedacinhos de maçã para atrair as formigas que assim não incomodavam quem se punha a ler, estendido, das mantas estendidas no chão, dos livros, de conversas. Os mais novos, como eu, a partir pinhões a tarde inteira e a colher agulhas de pinheiro para fazermos «trabalhos manuais», a fugirmos e a sermos reencontrados. Lembro-me de apanhar caracóis, não para cozer e comer, mas para guardá-los nas latas de tabaco de cachimbo do meu pai «Revelation» e a deixá-los à socapa passear à noite pelas paredes do quarto da pensão, e de manhã, as reprimendas… Lembro-me dum «palácio» em frente, na Serra de Sintra, com um talvez criado de libré que aparecia à janela durante a tarde, antes de o nevoeiro começar a descer, fazendo-o desaparecer e ao palácio, e o que a partir dele se imaginava sobre marqueses e marquesas… Lembro-me dos passeios até ao riacho com rãs, lá em baixo, e a Monserrate abandonado, com entrada livre, lá em cima… Lembro-me das idas (não diárias) à Praia das Maçãs, de manhã, no eléctrico amarelo (os meus mais não tinham carro) e das desgraças - crianças todos os anos mortas, pelas areias movediças, pelas correntes. Lembro-me de horas a fio na bicicleta, pela estrada esburacada que levava à casa do Zé da Quinta, abaixo e acima, e dos arranjos dos pneus e da corrente. Lembro-me da comida feita em fogão a petróleo nessa casa. Lembro-me de ir comprar ovos, uns metros acima, ao aviário moderno, com milhares de frangos a crescerem sem espaço debaixo de umas lâmpadas vermelhas. Lembro-me do Sr. Zé da Quinta a querer matar mulher e filha, pela vinha fora, não sei porquê. Lembro-me dos pirilampos e de um cometa, coisas que ali vi pela primeira vez. Dos arcos e flechas construídos e usados o dia inteiro, para acertar e não para matar. Fisgas talvez, mas poucas. E lembro-me dum campo de ténis cheio de buracos, nas traseiras da Pensão Moderna, um grande palácio, onde alugavam quartos, onde todos, até eu, se puseram a tentar jogar ténis… com raquetes de não sei quem… Tardes desportivas maravilhosas, outra forma de estar e conversar… E lembro-me muito bem, que estando em férias lá, o Pitum Keil Amaral me foi buscar para entrar numa récita que no Rodízio organizava. E lá cantei, mais ou menos mascarada. Foi a primeira vez que pisei um «palco», que era ao ar livre, em casa da avó dele. Dessa alegria lembro-me muito bem.
A-De quem mais se recorda que a tenha marcado? ED-Os amigos dos meus pais que lá passavam férias ou que os iam visitar, conhecia-os de Lisboa. Frequentavam a nossa casa. Pessoa menos comum para mim era o Ferreira de Castro, de que me lembro bem, sentado à mesa do café com o meu pai, em Galamares, dentro ou ma esplanada, e também em Sintra (onde estava, julgo que num hotel), no café Paris, onde eu jogava «negus» com a filha enquanto eles conversavam. Acho que aprendi com ele a palavra «cacimba» de que ele se queixava, uma noite, na esplanada do Café do Sr. Alcino. Mas talvez de quem me lembre melhor é de um cigano, alojado numa barraca, com a família, num terreno com canaviais, perto da casa do Sr. Zé da Quinta, onde estávamos. Viu-me ao longe ingloriamente tentar fazer voar um «papagaio» pesado de mais, que não voava. E trouxe-me um, todo bem feitinho e calculado, em canas cortadas e papel de seda. Voava!!! Alto e muito alto! E eu fiquei a saber fazer o que os meus pais, citadinos e sedentários, não tinham conseguido ensinar-me porque também eles não sabiam. Fui aficionada de «papagaios» muitos anos. E nunca quis mal a ciganos.
A- Como recorda as Caves de S.Martinho, hoje sede da Alagamares e naquela altura mais conhecidas pelo "café do Alcino?" ED-O Café do Sr. Alcino era local da peregrinação diária, duas vezes por dia: depois do almoço e depois do jantar. Para beber café (eu não, que não tinha idade) e conversar. Enquanto os meus pais e os amigos conversavam, eu e um companheiro da minha idade (e às vezes outros filhos de «visitas» esporádicas ou regulares), saltávamos o muro, para lá cá e para lá, com variantes várias. Era ponto de honra não entrarmos pelo portão pequenino. O muro (que eu julgava enorme, e só percebi que era baixinho quando há não muito tempo lá regressei) servia para isso e não para delimitar a propriedade. E saltava, saltávamos. Também à corda, eu que era menina. E a fazer girar o «prato chinês» e parece-me que já o « holá-oop» (escreve-se assim?) à volta da cintura. Também foi, sentada num muro, mesmo em frente da esplanada do Café do Sr. Alcino, para onde éramos autorizados a ir, com cuidado, que aprendi as marcas dos carros. Foi o Rui Quartin Santos que me ensinou: o jogo era ver quem dizia primeiro a marca do carro que dava a curva em frente da Pensão Mariana: Austin, Opel, Volksvagen, Peugeot, Citoen (que ia dos 2CV à Boca de Sapo)… E lembro-me dos teen-agers, «muito» mais velhos do que eu, que incluiam os filhos do prof. Barahona Fernandes, nessa esplanada, a ensaiarem os primeiros passos dos primeiros rocks, de vez em quando, perante o incómodo dos intelectuais… A música saía do juke-box (não se chamava assim nessa altura) que lá havia e que engolia parece-me que 10 tostões em cada música,o mesmo que custavam os rajás de gelo (laranja, ananás) que comíamos muito de vez em quanto, por causa da saúde e das poupanças – o «palino» era muito mais caro – vinte e cinco tostões … só em dias de festa…
Na esplanada do Alcino, hoje sede da Alagamares
A- José Gomes Ferreira, Ferreira de Castro, Alfredo Guisado eram outras figuras dessa época. Quer salientar algum episódio que recorde deles ou tenha escutado a seu pai? ED-Do José Gomes Ferreira lembro-me muito bem. Era um grande amigo do meu pai. Mas não especialmente do Café do Sr. Alcino. Mais em Lisboa, nas casas e nos cafés. E na casa dele de Galamares. Do Ferreira de Castro, como já disse, lembro-me também. De chapéu na cabeça, à noite na esplanada do Sr. Alcino, a conversar, a conversar, também com o Roberto Nobre. Mas lembro-me dele mais em Sintra, onde o meu pai o ia visitar. E levava-me. Lembro-me do Alfredo Guisado e família, sobretudo na estrada, a saírem de sua casa e a entrarem nessa casa, que era ao lado da Pensão Mariana. Mas com esse não havia propriamente «convívio». Pertencia a outra zona política. Havia, parece-me «desaguisados».… ED-Sim acho que exagero dizer-se que se «conspirou». Estas pessoas que lá se encontravam eram todas da oposição. Mas do dizer constantemente mal do regime, e suspirar pelo seu fim, até à «conspiração» vai um enorme passo… Julgo até que não consideravam que a «conspiração» fosse uma solução. Eram mais pela «educação das massas», cada qual à sua maneira…
ED-Acho que sim. Mas atenção: nem todos os citados estiveram ligados directamente ao «neo-realismo» (a bem dizer só um, o Mário Dionísio). O que é interessante é ver o que os juntava, independentemente da «escola» a que pertenciam… O Vergílio Ferreira também foi muitas vezes a Galamares, tenho fotografias tiradas por ele… E pouco depois (ou se calhar já então) «cortaria relações» com o «neo-realismo». E muitos dos amigos dos meus pais de que me lembro e que conviviam ali não eram escritores nem artistas. Estavam era interessados na mudança do regime e do mundo. E liam, viam exposições, iam a concertos, ao cinema, a espectáculos, só os que lhes interessavam, e achavam que isso fazia parte dessa «mudança do mundo» que desejavam… Em Galamares encontraram um lugar seu. Pelo menos durante um tempo. Eduarda Dionísio junto à casa do "Zé da Quinta "
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