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"O escritor é um homem que se procura a si mesmo" Versão para impressão Enviar por E-mail
Segunda, 21 Dezembro 2009 10:32

                             

Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956.  Escritor, Tradutor e Realizador de Televisão Jornalista desde 1970, publicista, editor, realizador de cinema e vídeo. Licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor de Escrita Criativa. Alguns dos seus textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim, japonês, romeno, macedónio, croata e russo. Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal para o programa Acontece para a RTP, durante sete anos. Membro do International P.E.N. Club. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Coordenador Internacional da Organization Mondial de Poétes (1994-1995). Membro do International Comite of World Congress of Poets. Presidente da Associação Ibero-Americana de Escritores (1999-2000). Algumas das suas obras: Fim de Paisagem; Matinas, Laudas, Vésperas, Completas; Boca Barroca; Crónica da Vida Social dos Ocultistas, entre outras dum vasto percurso de mais de 30 anos.

 Residente em Sintra, colaborou já com a Alagamares no III Encontro de História de Sintra, em 2007, e no jantar debate sobre esoterismo, em 2008,tendo recentemente respondido a algumas das nossas perguntas.

Luís Filipe Sarmento (LFS) você é um conhecido escritor e agente cultural. Como vai o país no campo da Cultura?

LFS – Penso que Portugal, hoje, não é uma grande referência cultural na Europa e no mundo. Ser agente cultural, aqui, nos tempos que correm, é uma aventura. Criaram-se alguns equívocos em função dos mercados e a ecranização do mundo nesta era hipermoderna tem vindo a vender gato por lebre. E Portugal não foge a essa devastação. É um país que consome mais do que produz e aquilo que produz na cultura é pouco consumido internamente e, consequentemente, tem pouca visibilidade no exterior. Há excepções, mas não passam disso mesmo: excepções. Por outro lado, a seitização de grupos económicos e a absorção neles de alguns criadores transformaram produtos medíocres em ícones do regime. Nem sempre a massificação é sinónimo de qualidade na produção cultural e, nos exemplos que testemunhamos dia a dia, a maioria dessa produção avalia-se abaixo, muito abaixo, do que seria expectável. Temos acesso ao bom e ao mau, é verdade, mas é sempre o medíocre que merece relevância numa lógica de um consumo de massas. E é aí que surge a confusão. Temos em Portugal grandes nomes de criadores que foram lançados na obscuridade, dando lugar a novas estrelas de fabrico em série e, obviamente, expressando, por ignorância, avalanches de lugares comuns que nada trazem ao edifício cultural já construído. Virão outros tempos, mas o que trarão não sei. O importante é que as obras fiquem registadas, disponíveis, a eleição será do consumidor. Se consumir mal será naturalmente uma pessoa intelectualmente menos armada. Se consumir bem, encontrará o justo caminho e diferenciará a felicidade que um enriquecimento cultural traz de uma felicidade paradoxal que promove o produto descartável e, consequentemente, votado ao esquecimento.   

  Como definiria a sua obra?

 LFS – Tentei, desde sempre, que fosse uma obra de exploração. Foi a curiosidade que me trouxe à literatura, ao cinema, ao teatro. Salvo um ou outro registo não é uma obra que se identifique com um espaço, mas que tenta perscrutar o tempo, a existência, por vezes o destino numa diligência vã de chegar à plenitude. Ao mesmo tempo, há um sentimento de perda no momento em que se cria, um vazio que nunca será ocupado. Os meus livros abordam essas temáticas de diversas maneiras. O que busca a curiosidade? É um percurso interminável, cheio de transversais, ligações, chamamentos que nos levam a lugares impensáveis. Com a mundialização, parece-me, perdeu-se esse sentido de identidade que limitava a expressão do escritor. Hoje, o estado de comunicação permanente com o mundo, o acesso rápido à informação, as mutações constantes das sociedades provocadas pelo protagonismo das novas tecnologias, permite ao escritor uma identificação com um mundo infinitamente em transformação. E essa é a grande aventura de quem escreve no presente, com a mochila do passado às costas, e os olhos postos no infinitamente futuro, ou seja, a escrita hoje é a interrogação dos destinos e, também, a sua surpresa. Os meus livros, desde o primeiro, falam da liberdade, do amor, da relação entre os homens, da questão de Deus como metáfora do medo e da cobardia, mas também falam da exposição ao perigo, da experiência formal, da estética e das correntes de devastação que nos levam a limites inconcebíveis. Os meus livros apresentam-se como um xadrez de sensações.

 É um místico em torno de temas como a origem de Portugal ou Portugal como um projecto templário? E em torno da serra de Sintra?

 LFS – Não, não sou um místico. Nunca fui. O misticismo, como tudo o resto, é matéria literária. E o tema dos Templários não foge a essa regra. Foi uma ordem que criou o seu próprio mito e deixou inúmeras possibilidades de especulação a historiadores e fabuladores. Não conheço nenhum documento que indique que Portugal fosse um projecto templário. Pode ser que tenha sido, pode ser que não tenha sido. Seria o mesmo dizer que o mundo hoje é o resultado de maquinações secretas de um governo oculto, liderado ou não por grupos como o Bilderberg. Eu não creio nisso, mas não me chocaria nada perante a evidência acreditar que Portugal fosse um projecto Templário numa ideia de sede do Quinto Império lançada por Vieira e explorada literária e filosoficamente por Pessoa. O que eu não deixo de levar em conta é que essa ideia, ou melhor, a partir dessa ideia mítica, foram criadas belíssimas páginas de literatura e de pensamento, questionando sempre o homem e o seu caminho. Já muito se disse sobre a ordem Templária, milhões de páginas foram escritas, muitas sustentadas no facto histórico, a maioria alimentada pela imaginação dos seus autores e que em vez de clarificaram densificaram a história. São os Templários do tesouro perdido, são os cavaleiros dos segredos impossíveis, são os mestres ocultos do ocidente, são os construtores de mensagens esotéricas e obscuras, são os alquimistas dos espíritos, são tudo aquilo que a imaginação humana quiser. E para cada item há milhares de especialistas com «provas provadas» de acontecimentos e factos analisados sob o olhar da especulação. Ou seja, divagações e artifícios, alguns bem intencionados, honestos e até bem documentados para debate ampliado, outros delirantes, tortuosos. Em cada mil obras dedicadas às actividades obscuras e esotéricas dos cavaleiros do Templo, aparece uma que tenta tão só clarificar, aclarar, dar à luz, iluminar sejam façanhas e facetas, factos e sucessos, pessoas e obras. É bom não esquecer que tudo o que envolve a cavalaria do Templo, seja do seu foro interno ou externo, foi criado, desenvolvido e expandido por pessoas, homens, seres inteligentes e não por efeitos divinos que neste contexto são apenas lateralidades sombrias num universo que se presta à especulação do mais inesperado delírio. O mesmo se passa com Sintra. Há pessoas psicologicamente afectadas que «descobriram» em Sintra mundos subterrâneos, uma cidade com o nome de Badagas, que conhecem a sua língua e que a partir dessas fraudes levam muitos ingénuos – a ingenuidade da curiosidade – através de «ordens», «ritos» e «rituais» a crerem em realidades inexistentes. Sintra é a natureza no seu esplendor, parte do que pode ser entendido como a physis grega. A serra de Sintra tem tantos mistérios como outros lugares, mas o que apaixona as pessoas é a sua exuberância romântica, a sua mitologia da paisagem, os encantos dos seus recantos. Creio que não é mais do que isso. E se for um mistério deve permanecer como tal até que chegue o momento de ser revelado. Sintra é, antes de tudo, um lugar especial pela sua beleza natural, pelo seu clima, pela sua história e deveria ser, por tudo isto, o centro cultural do país. Há, em Sintra, todas as condições para que o investimento fosse canalizado para os eventos culturais, durante todo o ano, com congressos, exposições internacionais, festivais, debates, espectáculos, cinema e, também, como centro de acolhimento de artistas de todo o mundo, lugar de trocas, de experiências e que levaria o nome de Sintra aos quatro cantos do mundo como sede de criação artística, mas infelizmente o poder político que nos toca não tem sido sensível a esta temática. Se Sintra fosse esse centro cultural que muitos artistas ambicionam que seja, seria uma terra mais rica, com mais comércio, com mais indústria cultural instalada na região e cúmplice deste projecto, com mais poder económico, com mais educação – por que razão é que Sintra não tem hoje uma Universidade de Artes? Sintra não promove nada disto porque os seus dirigentes estão intelectualmente aquém do que seria desejável para dirigirem os destinos de uma Cidade Eterna como esta.

  O que anda a escrever e vai publicar proximamente?

 LFS – Regressei à poesia ao fim de onze anos. Como sabe, o meu último livro de poesia, A Intimidade do Sono, foi publicado em 1998. E desde essa altura tenho dedicado mais tempo à ficção e ao estudo da filosofia contemporânea e às temáticas lançadas por Gilles Lipovetsky sobre os Tempos Hipermodernos. Muitas ideias se cruzaram entretanto. E chegou o tempo de me reorganizar nos espaços dos livros. Peço-lhe perdão, mas não divulgarei os títulos. O que posso dizer-lhe é que estou a acabar um livro de poesia com 99 poemas; estou, também, há cerca de sete anos com um romance que está numa fase de revisão e, ainda, com um ensaio que aborda a temática hipermoderna, a relação do homem anónimo que se reinventa através de outras personalidades virtuais para chegar ao outro no seio de um universo paradoxal. Se tudo correr bem, creio que a partir de Março começarão a sair esses livros. 

 Qual pensa ser o futuro do livro e da leitura nesta época de redes sociais e audiolivros?

 LFS – Creio que as redes sociais e os audiolivros só irão reforçar a indústria do livro tradicional. Os amantes de cultura não dispensarão nunca o objecto. Da compra do livro à leitura há vários passos de todo um ritual que o leitor não dispensa. O que as redes sociais têm feito é divulgar a existência do livro como um bem comum e através do qual chegaremos mais facilmente ao conhecimento. O audiolivro aparece como um complemento à leitura, escuta-se o exercício de interpretação através da voz de um outro, mas não substitui, na minha opinião, o livro objecto, com cheiro a papel e tinta, que nos fala na intimidade da experiência dos seus autores. Ler um livro é viajar lado a lado com quem os escreveu numa concentração própria que o audiolivro não tem. Mas haverá, certamente, lugar para os dois veículos. Já não é a primeira vez que se fala do fim do livro. Quando o cinema se massificou, também houve quem dissesse que o livro teria os dias contados; mais tarde, com a televisão, reforçou-se esta ideia e afirmou-se que seria o fim do cinema e por aí fora. E isso nunca aconteceu. São coisas diferentes e que devem coexistir pacificamente porque só o leitor e o espectador sairão beneficiados e, consequentemente, os seus produtores.

  Quais as patologias e virtudes da vida cultural em Sintra?

 LFS – Gostaria de remeter a resposta para a segunda parte da terceira pergunta. Em síntese, encontra-se aí tudo o que penso acerca do que poderia ser Sintra e não é. Mas posso acrescentar que o aparecimento de várias associações culturais em Sintra deu um pequeno abanão ao marasmo que se vivia. Contudo, o poder político não foi sensível ao ponto de aproveitar esse balanço para ir mais longe. O que a Alagamares faz pode ser comparado com o trabalho de uma ONG na luta pela defesa dos valores sintrenses com as inúmeras actividades que tem promovido ao longo da sua curta existência. Mas toda esta actividade deveria estender-se ao contacto internacional. Trazer a Sintra escritores, pensadores, artistas plásticos, grupos de teatro como aqueles que estão sediados em Sintra. Criar uma Casa da Cultura, o Museu da Poesia, retomar a Bienal de Sintra, promover um grande Salão do Livro, etc. É caro? É, mas muito mais barato que sustentar equipas profissionais de futebol. Há mais vida para além do futebol. Quero, no entanto, salientar que a construção do Centro Olga do Cadaval foi um passo importantíssimo, assim como o Museu, mau grado tenha perdido parte da importantíssima colecção Berardo. E por que razão, Sintra não inicia a sua própria colecção de arte? É caro? É, mas muito mais barato que a corrupção. E retomando a ideia da Universidade de Artes em Sintra, creio que a cidade passaria a ser um pólo aglutinador de vida rejuvenescida onde novos e velhos partilhariam este prazer incomensurável que é o prazer de conhecer. É caro? É, mas muito mais barato que a construção de um estádio de futebol. Sintra é uma pedra bruta que ao ser lapidada fará com que o seu brilho atraia os grandes protagonistas da cena cultural mundial.

  Enquadra o seu trabalho nalguma corrente literária ou estética? Qual?  

 LFS – Passei por vários momentos de fascínio em relação a algumas correntes literárias do modernismo, mas nunca me identifiquei com nenhuma delas enquanto criador. No momento em que se cria o que se plasma é a inquietação do seu gerador que, em meu entender, nos tempos que correm, não se pode limitar a esta ou àquela corrente estética. O que faz a diferença é o estilo de cada um, a descoberta da sua voz. Hoje, tudo é excessivo e efémero, o que fica é o registo do nosso olhar, a reportagem do nosso tempo. O que a arte tem vindo a denunciar é que todos nós somos filhos e netos de péssimos educadores e que o encantamento pelo liberalismo económico e pela obsessão do dinheiro lançou o mundo numa derrocada de valores cujos principais responsáveis são os vampiros das nossas sociedades. A literatura e toda a Arte têm como missão denunciar essa sangria a que estamos sujeitos. Talvez a grande corrente literária e artística seja a denúncia contra os assassinos da nossa casa (causa) única: o planeta onde (sobre)vivemos e onde queremos viver melhor.

  O LFS foi um dos tradutores da Tora. Qual o papel das religiões na sociedade moderna?  

 LFS – Traduzi a Tora, assim como os Textos Gnósticos. São textos primordiais da relação humana com o mistério da vida e sobre o retorno a um lugar lumínico de eterno repouso, mas não deixam de ser narrativas mitómanas: a necessidade, por medo, de crer numa salvação, ou seja, no perdão compulsado pela sua má consciência. A verdade é que a Terra Prometida nunca deixou de ser a Terra de uma Guerra Prometida que está para além das crenças e da fé, mas sim associada a interesses ocultos a partir de interpretações tendenciosas que conduzem a fanatismos suicidas. O que deveria ligar o homem ao universo separou-o do seu semelhante. A ideologia tomou conta da fé, o dinheiro do ritual. A interpretação, hoje, dos textos sagrados está minada por estes dois aspectos que inflamam as partes cujos líderes procuram tão só o poder, o poder de controlar os outros, relegando para o esquecimento a mensagem primeira das escrituras sagradas sejam elas de que religião forem. O que é a sociedade moderna? Será a mesma coisa na Europa e no mundo árabe ou na China? Creio que não. Haverá múltiplas modernidades e no seio de comunidades tão díspares como a ocidental ou a asiática ou a africana, as religiões e os seus fundamentalismos surgem como movimentos antimodernidade o que cria problemas graves aos que querem promover o diálogo. Se observarmos, todas as religiões restringem a liberdade do ser humano, refugiando-se hipocritamente na defesa de valores conservadores que não acompanham o passo da modernidade. As religiões ao longo da sua história têm lançado anátemas contra a investigação científica em nome de uma inexistência ou de uma existência idealizada e nunca provada. O que as religiões fazem, hoje, em todo o mundo é uma vala entre o passado e o futuro. Apontam sempre o caminho retrógrado, nunca apontam para o futuro porque é no passado e em nome desses valores que já não fazem sentido nas sociedades modernas que reside o seu poder intocável. Foi a religião que mandou para a fogueira Giordano Bruno, foi a religião que assassinou parte da história com a Inquisição, queimando pessoas e testemunhos da humanidade. É verdade que já pediram perdão por isso, mas fizeram-no em nome de Deus. E daqui a quinhentos anos irão pedir desculpa pelas atrocidades que em nome do mesmo Deus têm cometido. As religiões saíram sempre fora do seu âmbito numa tentativa de dominar o que estava para além do ritual e continuam a fazê-lo, basta ver os telejornais e ler a imprensa diariamente. Não há nada que possa subjugar o ser humano idóneo à vontade do outro em nome de Deus. Mas é exactamente o que as religiões fazem. Sei que em todas elas há homens que se debatem para a debelação destes problemas e são eles que promovem o diálogo inter-religioso, mas encontram obstáculos intransponíveis para levar o bom senso a bom porto. As religiões em nome das suas «regras» internas querem interferir no mundo social onde se inserem os não crentes. Interrupção voluntária da gravidez, a eutanásia, a transexualidade, o casamento entre seres do mesmo sexo, temas que estão na ordem do dia e que têm toda a legitimidade no debate são violentamente atacados pelos líderes religiosos que querem impor a sua vontade ao mundo dos outros. As religiões têm sido ao longo da história peças de castração da humanidade, apesar de alguns dos seus homens terem deixado legados de suma importância para a humanidade. As religiões para tomarem parte nas discussões que estão na ordem do dia nas sociedades modernas teriam de ser elas próprias modernas e não o são. Os seus olhos querem ver um mundo que já não existe. Nenhum religioso pode impor-se a um não religioso. A liberdade está na assumpção das diferenças e aí reside a riqueza da humanidade. As religiões serão respeitadas na medida em que respeitem o curso da humanidade.

  É conhecida a sua ligação aos escritores latino-americanos. Que traços comuns ou distintivos encontra nesses caldos de cultura comparados com a realidade portuguesa?

 LFS – A primeira relação com os escritores latino-americanos foi, obviamente, através da leitura do Realismo Mágico. Escritores como Borges, Córtazar, Carpentier, García Márquez, Carlos Fuentes e tantos outros marcaram indelevelmente a minha juventude, o meu crescimento enquanto homem. Mais tarde, através dos escritores espanhóis com quem mantenho relações de profunda amizade cheguei aos latino-americanos da minha geração com os quais me foi fácil identificar. E, como sabe, tenho participado em muitos encontros de literatura latino-americana que têm vindo a aprofundar esses laços. Penso que há uma grande proximidade entre a América-Latina, Espanha e Portugal, somos todos mesclados, resultado de caldos de cultura que nos engendraram e dos quais não podemos fugir. É a linguagem do sangue e da cor, da exuberância metafórica e do edifício labiríntico, o gosto pelo obscuro iluminado que nos aproxima, que nos torna irmãos de uma fraternidade mágica. A gastronomia, a mesa, a conversa solta, como estupefacientes das ideias, a música e a dança como ritual da paixão, a comemoração do álcool e da palavra, a festa e a morte. Estes são, entre muitos outros, os aspectos que nos aproximam, que têm uma linguagem singular e uma cumplicidade incomparáveis. Sinto-me em casa em qualquer país da América Latina, sou recebido como se nunca de lá tivesse saído. A sensação que tenho quando me encontro no espaço latino-americano é que estou sempre em movimento e em cada olhar a revelação de algo que me identifica com aquela gente. A herança da América Latina é a mesma que a nossa, tanto o Mediterrâneo como África estão presentes e nós recebemos do outro lado do Atlântico as referências das culturas índias com Colombo e Cabral. Tudo isto é muito colorido, muito solar, muito distinto e tem também os seus aspectos lunares, sombrios que nos fascinam. Em todo este espaço multicolorido há uma tradição europeia, africana, índia, mas também islâmica e judaica. O resultado é um pensamento comum de liberdade.    

  O escritor é um fingidor, um esteta, um profeta ou um solitário?

 LFS – O escritor nem é um fingidor nem um esteta nem um profeta nem um solitário. É um homem que se procura a si mesmo. Escreve para se conhecer. Escreve para estabelecer uma relação com o outro. Todos esses predicados são-lhe atribuídos por outros. Poderá ser tudo isso ao mesmo tempo enquanto criador, mas não é uma condição prévia para o ser. Como disse Ortega y Gasset o homem é ele próprio e as suas circunstâncias assim como o é o escritor em cada momento. Ser tudo e nada. A voz megafónica e o silêncio. Há sempre uma predisposição de transcendência enquanto se cria. Transcendemo-nos para cair no vazio, na origem informe de onde se parte para a ideia tímida e daí para a criação. Onde é que vivemos? No Universo! Somos parte dele. Não estamos fora dele! Os nossos ritmos são os ritmos do universo. E, por vezes, sonhamos que somos a sua metáfora.