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Lembrando o Padre Alberto Versão para impressão Enviar por E-mail
Domingo, 18 Julho 2010 08:31

                            

Lembra-se aqui a figura do Padre Alberto Neto, que   de 1979 a 1982 foi padre da paróquia de Belas e depois de Rio de Mouro, figura de cidadão interveniente e consciente.

Foi assassinado por um tiro de pistola, em Setúbal em 1987. A investigação criminal foi inconclusiva.

O Padre Alberto Neto participou, desde 1969 em reuniões secretas anti-regime e anti-guerra colonial.

Distinguiu-se principalmente enquanto pároco da capela do Rato, em Lisboa. Colaborou activamente na iniciativa de um grupo de católicos, em 1973, de realização de uma vigília de reflexão sobre a guerra colonial contra a autodeterminação das então colónias portuguesas em África, então decorrente, e a necessidade assinar tratados de paz, reconhecendo a sua independência. Aprovam uma moção criticando a guerra.

No segundo dia da vigília, um grupo de polícia de choque da PIDE-DGS entra à força na capela e prende 91 pessoas aí encontradas, incluindo líderes da oposição ilegalizada e funcionários públicos que foram exonerados. Entre eles, encontravam-se Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira, Francisco Pereira de Moura, futuro membro de um dos primeiros governos democráticos; Francisco Louçã, actual líder do Bloco de Esquerda, entre outros. Muitos acabaram a cumprir pena na Prisão de Caxias, para presos políticos.

Alguns dias mais tarde, o padre Alberto Neto é demitido das suas funções, e a sua vigília condenada pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D.António Ribeiro, uma acção que leva muitos católicos a demarcarem-se da hierarquia e reforçando a sua oposição ao regime. Vários deputados da Ala Liberal da Assembleia Nacional, movidos pela solidariedade católica, poriam em questão a legitimidade da acção policial. O mais proeminente, Miller Guerra seria forçado a demitir-se.

Professor do ensino secundário, escrevia ele sobre a escola pouco tempo antes de morrer:

    A Escola Nova

    Redacção de um professor ingénuo numa tarde sem aulas, Sexta-feira a seguir ao Carnaval.

 

    - É um local que não é quartel, nem armazém, nem museu.

    - É aquela onde a disciplina não é sagrada. É precisa e aceite.

    - É aquela onde passar o ano é mais normal do que chumbar.

    - É aquela que não enche a memória e deixa o coração vazio.

    - É aquela que não tem medo do Futuro, mas se lembra que está no Presente.

    - É aquela onde as árvores e as flores são tão importantes como o giz ou a caneta. Ou mais.

    - É aquela onde não é proibido sonhar.

    - É aquela que nos ensina a viver.

    - É aquela em que os alunos não apanham mais negativas em Português, Matemática e Física.

    - É aquela em que o livro de História não é o mesmo por onde o meu bisavô estudou.

    - É aquela que ensina a falar uma língua nova antes de se saberem de cor todos os verbos irregulares.

    - É aquela onde a professora fez o ponto de Filosofia pelo "Diário Popular".

    - É aquela onde experimentar o que se aprendeu não é proibido.

    - É aquela onde fazer ginástica não é um luxo e aprender a saber comer é tão importante como falar francês.

    - É aquela onde se aprende que o sexo é uma coisa importante e por isso não é proibido falar dele com seriedade e beleza.

    - É aquela que nos ajuda a saber que o amor é mais importante que a cultura e esta muito mais bela que o dinheiro.

    - É aquela em que as notas (informações) são um mal necessário, mas um ano destes vão acabar.

    - É aquela onde aprender dá gosto e decorar se faz sem dar por isso.

    - É aquela onde o professor não tem medo de dizer que não sabe mas vai responder amanhã.

    - É aquela onde os professores fazem esquemas novos quase todos os anos.

    - É aquela onde cabem todos os alunos e ainda fica um bocadinho de espaço para professores e empregados.

    - É aquela onde os empregados não ralham mas lembram.

    - É aquela onde os alunos, professores e empregados têm o direito de estar mal dispostos uma vez por semana.

    - É aquela onde os professores, empregados e alunos ficam obrigados todos a verem-se ao menos uma vez cada ano.

    - É aquela onde o imprevisto pode surgir ao menos 3 vezes ao ano.

    - É aquela que os professores e empregados aparecem muitas vezes fora do horário.

    - É aquela que torna as férias grandes para os alunos numa espada comprida como a de Carlos Magno.

    - É aquela que nos ensina que, sem os outros, em poucos anos ficamos analfabetos.

    - É aquela que, para mim, aos 80 anos ainda é Escola Nova.

 

    P.S. - Esta Escola não existe de facto. Não sei sinceramente se algum dia existirá. Posso jurar, no entanto, que não é pecado nenhum começar já a sonhá-la. Já.

 

    Jornal do Fundão, 6 de Novembro de 1987