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Ignara e o Teatromosca - Entrevista com Paulo Reis Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 14 Janeiro 2009 13:05

A propósito de IGNARA,ouvimos um dos elementos do Teatromosca.


Alagamares (A)- Paulo, podias dizer-nos como e quando surgiu o Teatromosca?

 

PAULO REIS (PR)-O Teatromosca nasceu a partir das actividades duma associação cultural fundada no Cacém chamada Rostos Cobertos, donde surgiu a companhia de marionettes Valdevinos e a associação cultural Teatromosca. Depois essa associação autonomizou-se e em 1998 tornou-se uma associação autónoma.

A-E a vossa intervenção tem sido sobretudo na área de Sintra?

PR-Habitualmente actuamos por todo o país, mas as estreias são sempre em Sintra, Sintra é o nosso lugar de eleição.

A-Que peças podem recordar que tenham sido marcantes na vossa actividade?

PR Recordo a primeira ,que foi uma peça dum dramaturgo americano ,chamada “Ser Bom”,fizemos a tradução, foi baseada num texto inspirado em Dostoievski ,e por questões logísticas foi estreada na Fábrica da Pólvora em Barcarena. Falava sobre a vida urbana, suburbana, sobre um homem que tinha veleidades ascéticas, que se queria elevar a um nível superior.

A- Qual o vosso público alvo? (se é que têm um público alvo…)

PR-Não temos um público específico. Temos um público adulto e um público infanto-juvenil, digamos assim.

A-E têm uma sede para actividades ou são itinerantes nos espaços disponíveis em Sintra?

PR-Não temos um espaço próprio, embora o procuremos, a maioria das produções são realizadas em espaços cedidos.

A-O vosso actual projecto Ignara visa a construção gradual de uma futura peça que será apresentada segundo sabemos em 2010. Qual o envolvimento do público com vista à actividade final?

PR-O ponto de partida do projecto partiu do facto de todos nós os que estamos envolvidos sermos filhos de ex-combatentes e intuímos que era um tema pouco falado, sobre o qual reinava um certo silêncio, um pouco enguiçado, e então, a partir dessa intuição tentámos validá-la através de diversos textos ,ensaios, etc, e que confirma que é ainda hoje um tema ignorado, daí o nome IGNARA.

A-Achas que ainda permanece na sociedade portuguesa um trauma das sequelas da guerra colonial?

PR-Sem dúvida.Embora venham a surgir muitos livros nos escaparates com depoimentos de ex-combatentes da guerra colonial, e realço o trabalho para TV do Joaquim Furtado, resultado de anos de trabalho e que trouxe o tema para a ordem do dia. Quanto mais comunicação houver sobre o tema mais o trauma tenderá a esvair-se .Aliás, este não é só um projecto nosso mas também de ex-combatentes. Nós estreámos este projecto na ADFA (Associação de Deficientes das Forças Armadas) no núcleo de Sintra, e um dos métodos que eles usam para aliviar esses traumas á criando grupos de conversa nos quais dão testemunho do que passaram.

A-Como vêem o Movimento cultural sintrense e o que pensam da união daqueles que querem apresentar e desenvolver os seus projectos na área de Sintra?

PR-Não há uma solução unívoca, e terá de partir dos agentes e produtores culturais, o foco principal deve ser colocado nas pessoas que fazem cultura em Sintra e a promovem, e deve ser uma responsabilidade partilhada com a autarquia, que dê a Sintra aquilo que ela merece. Um amigo meu diz que Sintra é a Bela Adormecida, onde há toda a sorte de hipóteses de fazer projectos de qualidade.

A-Para terminar, como definirias o teatro numa frase?

PR-O Garrett dizia que o teatro é um meio de civilização assim a civilização “regional” deve ter formas de andar sem pés de barro. Eu diria que o teatro é Sintra, o teatro é amor a Sintra.