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| Ana Martins,escritora "por cristalino deleite" |
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| Terça, 02 Fevereiro 2010 14:38 |
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De Ana Martins, escritora sintrense, editamos um depoimento obtido depois da participação no Encontro Literário da Alagamares de Novembro passado. Ana Martins nasceu em Lisboa, Alvalade, no último dia de Verão do carismático ano de ‘63 quando surgem os Beatles e desaparece JFK.Acredita que de um escritor deve saber-se o que escreve não o que diz, pensa ou é. Sempre escreveu, nunca poemas, mas cartas a amigos e diários em cadernos de textos intermináveis, rabiscados como esquissos de promissoras telas nunca pintadas.Dos textos que produz tem livros e artigos de opinião não apresentados (guardados não numa gaveta, mas num disco rígido externo). E há o trabalho que veio a público em forma de artigos em diversas publicações e em dois livros: “Autista, quem…? Eu?” (Centralivros, 2006) e “Contos de Verão” (Coolbooks, 2004).Mãe de um jovem de 20 anos com Síndrome Autística, dedica-se há muitos anos às questões relacionadas com o autismo e interveio em debates, seminários, conferências, congressos, apresentações, entrevistas, reportagens e mais um par de botas sobre o tema.Um jovem com autismo refere-se sempre à autora dizendo: “A Ana Martins é a Praia da Nazaré” Foi em busca dessa imagem que partiu sem escrever sobre si nesta Bio, na vã tentativa de reproduzir fotograficamente o que presume possa ser essa sensação aos olhos de seu amigo.Mais informação em www.anamartins.com/ A Ana Martins é uma escritora sintrense já com alguma visibilidade. Como e porquê decidiu começar a escrever? Na verdade sempre escrevi. E se inicialmente de uma forma muito natural e direccionada - manter correspondência por cartas a amigos, hábito que ainda tento manter com grande dificuldade devido ao imediatismo da escrita via internet - recordo o momento de me ter libertado do formato “carta” ou de escrever direccionado a um determinado remetente. Eu não escrevi diários, nem escrevia para mim então dei-me conta que escrevia simplesmente. Pelo cristalino deleite que tanto me apazigua de o fazer. Como definiria a sua escrita? Não gosto de rótulos. Gosto de escrever de forma acessível, mas não penso que tenha de ser eu a qualificar. Deixo-vos duas visões de quem muito considero. Vasco Catarino Soares escreveu sobre mim: “Ana Martins constrói texto de português fluente, de significados claros, imagens nítidas e dá-nos janelas de vidas que pouco conhecemos” e Miguel Real para além de me considerar “a Rui Zink de Sintra” refere “a perplexidade positiva com que Ana Martins enfrenta a vida através do que escreve”. Tem alguma referência literária nos autores contemporâneos? Tenho uma regra que sigo: se leio não escrevo, se escrevo não leio. Há uma porta que se fecha entre a Ana leitora e a que escreve de igual forma compulsivamente. Assim, logo com autores favoritos, não incorro no perigo de embalar, ir atrás e deixo fluir apenas o meu eu. Contemporâneos, escolheria o americano Chuck Palahniuk e a francesa Anna Gavalda. A temática do autismo tem sido presença na sua obra. Qual o testemunho e a mensagem que uma obra literária pode dar destas temáticas? Autismo é um ilustre desconhecido. Precisa de um mestre-de-cerimónias que faça as honras e o apresente. Escrever entrando numa mente autista torna-a perceptível à população que se designa de normal. Existe um medo latente e perene pelo que se desconhece e o autismo será o bicho papão das deficiências por não estar estampado no rosto, por a todos, até com quem lida, ser tão estranho e desconcertante. Dar a conhecer, elucidar mentes, desmistificar o folclore em torno do autismo, já me parece, por si só, razão suficiente para continuar a escrever sobre um tema que nunca pensei vir a ter um acesso tão intenso. Qual o papel que os blogues e as redes sociais podem ter na difusão e aparecimento de novos autores? Não será tanto o mérito dos blogues e das redes sociais, mais o desmérito das editoras que, estando em período de convulsão, não acompanharam o ritmo vertiginoso com que se propaga algo online. Obviamente que aparecem novos autores que seriam barrados pelos barões editoriais, até têm direito ao seu momento de fama, mas a triagem é plena de senso e os bons autores, esses, não são perecíveis. Acha que de certa forma todas as obras são autobiográficas e que se escreve sempre o mesmo livro? Os clichés servem para se brincar com eles. E há autores que o fazem com a sua obra. Nem toda será autobiográfica - o tema esgota-se - nem todas as personagens são fruto de uma imaginação genial. Explico, no meu caso. Observo, retenho, rabisco, guardo. Imagens, fragmentos de conversas, expressões, gestos, cheiros, olhares, sensações, emoções, sentimentos. Armazeno. Um dia escrevo algo tonto sobre as riscas coloridas das meias numa personagem e sei que memória acordou em mim. Muitas vezes estou plenamente convencida que é puro processo criativo, mas nem que seja depois, a assinar um autógrafo, a imagem aparece. Aquele momento armazenado foi “Frankensteinizado” com tantos outros numa mescla que me embusteia todos os sentidos e, por vezes, confesso nem reconheço os elementos repescados pelo meu subconsciente. O objecto retratado então jamais se (re)vê. Tenho esse cuidado e respeito-o de forma bem consciente. Se acaso quero fazer uma didicatória a alguém em especial, faço-o combinando com o visado, para que se sinta confortável ou que nunca algum leitor para além de nós dois entenda quem possa ser o visado. Nem os amigos próximos! Nesse aspecto sou bastante rigorosa. Por isso chamo a este um processo de “Frankensteinização”, tanto é o coze e recorta executado em cada personagem. Como disse, pode ser um olhar, uma expressão, um gesto largo, ou algo tonto como a cor das peúgas. E perguntava ainda se escrevemos sempre o mesmo livro? Não. Não para quem tem sempre a mente a fervilhar com tanta ideia nova. Se as possibilidades de “Frankensteinização” são ilimitadas, então para quê repetir!? Seria um aborrecimento! Criar é a parte mais bonita e apelativa do acto de escrever. Repetir o mesmo livro, a mesma ideia? Ora, nem pensar!! Quais são os principais problemas com que se depara na edição e difusão da sua obra? Exactamente o que atrás referi. O mundo pulou e avançou. Os barões assinalados casaram no Restelo com o velhinho. Digo-o com leveza, mas encaro-o com enorme seriedade. É o fim de uma era. Não creio contudo que o livro físico alguma vez morra. Mas há que caminhar a passo com a vida, sob pena de se ser trucidado. Penso que o mundo editorial terá de se reinventar para que se cubra de novo com a capa da credibilidade. Merece-a. Planos para o futuro? Sim, muitos. Como todo o mundo os tem. Alguns concretizáveis, outros nem tanto, a maioria a acontecerem a seu tempo de forma bastante serena. Não vivo no futuro, mas no presente. E é neste que se constrói o porvir. Como vê o futuro da literatura portuguesa, em termos de temáticas? O acordo ortográfico é vantajoso? Temáticas? As de sempre. Abordadas de forma diferente. Afinal… a acreditar que todas as estórias já foram escritas, caramba!, que o façam de forma original! Haverá ainda mil maneiras diferentes de escrever sobre o filho pródigo ou contar uma bela estória de amor. Haja engenho e arte!! Já quanto ao acordo tenho as minhas fortes reservas. A servir realmente a homogeneidade, que tal seguir como fio condutor o português de Portugal? Se nos perguntarmos a quem serve melhor o acordo, certamente não ao nosso país. Não somos uma ex-colónia lusófona. Somos a nação mãe. O exemplo deveria ser o nacional. Não o de um qualquer outro país. É a minha posição, vale o que vale. O acordo está aí e até ver está para ficar. O tempo dirá se desta feita o velho do Restelo sou eu. Dos livros que já escreveu como os classificaria, individualmente? Os que escrevi? Mas então terei de contabilizar os que deram à estampa pela via tradicional e os que estão em gaveta e escolhi não publicar… ainda. O primeiro - um romance de Amor - classificaria de INOCENTE. Tem a ver com a estória enternecedora que conto, com a ainda pouca maturidade que sinto hoje na minha forma de escrever à altura. É um romance escrito em Português e Espanhol, escrito como se fosse a quatro mãos. O segundo - um romance de conversas entre três mulheres - classificaria de DENSO. Não é um livro leve, nem as protagonistas mantêm conversa tola que tão bem as mulheres sabem fazer, dizem. Bom, não todas, definitivamente não as minhas três personagens, uma casada, uma divorciada, uma solteira. O terceiro - uma colectânea de contos - classificaria de VERANIL. Dois contos são de minha autoria. Publicado em 2004 fruto de um concurso sob o tema «Contos de Verão», originou um livro com mesmo nome. Os trinta melhores contos seriam publicados. Concorri com duas candidaturas e ambas ganharam. O quarto - um romance sobre o tema autismo - classificaria de MARCANTE. Foi o único que até hoje permiti ser distribuído pelo sistema vigente. Publicado em 2006 com o título «Autista, quem…? Eu?» continua actual e a ser vendido. Neste 4º ano de vida, o livro é requisitado por jovens estudantes, um público que não esperava e me deixou perplexa. Marcante na vida de tanto leitor que depois de me ler, me tem vindo a confidenciar ao longo dos anos que seguiu área de saúde, fez mestrado em Educação Especial, tomou novo rumo devido às minhas palavras. Marcante para mim, enquanto autora, por esta responsabilidade acrescida que me deixa imensamente grata. Tem nova edição a sair. Não chegou para os alunos este ano lectivo, o que deixou triste não ter podido chegar a tantos quanto o desejavam, mas particularmente grata. O quinto - um romance em forma de pequenos contos todos imperceptivelmente interligados, como se uma fina linha a todos alinhavasse - classificaria de DESTEMIDO. Violência doméstica não é para ser calada nunca, essa é a maior arma do agressor: o medo e o silêncio. A ser equacionada a sua publicação. E a ser, será este ano. O sexto - continuação do romance sobre o tema autismo - classificaria de TOCANTE. Sempre foi planeado ser uma trilogia, pelo que tenho neste momento em mãos o segundo romance. Este romance demorou a sair de mim, apesar de estar mentalmente escrito desde o inicio do projecto, o facto de o classificar de tocante, penso que justifica a demora. Antes do leitor, tocou-me da forma mais intensa. Foi um parto difícil e muito desejado pelos leitores do primeiro. Vai estar disponível ainda este ano. Fica aqui a minha promessa.
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