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Na sequência do recente Relatório da Missão da Unesco a Sintra, de Março de 2006, a associação Alagamares promoveu, no passado dia 17 de Novembro, em Galamares, um encontro-debate focado no restauro e recuperação do Chalet da Condessa d'Edla, Imóvel de Interesse Público desde 1993, que consta da lista de Património Mundial, mas há décadas em completo abandono e hoje já parcialmente destruído por um fogo ocorrido em 1999.
Perante uma plateia interessada e participante, foram abordados os diversos aspectos relevantes para a resolução a contento desta "nódoa" em plena Sintra Património Mundial, por todos aceite que merece intervenção urgente, mas com condicionamentos ao nível financeiro e estratégico para um avanço decisivo que importam ultrapassar sem mais demoras.
O presidente da Alagamares, Fernando Morais Gomes, moderador do debate, fez uma resenha histórica da figura da Condessa Elise Hensler, segunda esposa do rei D. Fernando II, "cantora de ópera quasi rainha de Portugal e de Espanha", salientando a necessidade de se preservar, para as gerações futuras, através do restauro do chalet da Condessa, "uma memória histórica viva de Sintra". A este respeito, e dando sequência ao debate, colocou aos presentes três questões fundamentais, para as quais urge resposta: "como", "quando" e "para quê" recuperar o Chalet da Condessa d'Edla.
 Foto nr. 1: Debate sobre o Chalet da Condessa d'Edla. © Alagamares (17.11.2006).
O painel de oradores convidados foi constituído por Adriana Jones, da Associação de Defesa do Património de Sintra, João Rodil, escritor e director do Jornal de Sintra, e o vereador João Lacerda Tavares, actualmente com responsabilidades executivas na empresa Parques de Sintra-Monte da Lua e com particulares responsabilidades no processo de restauro e recuperação do local e sua envolvente.
João Rodil, autor de "Serra, Luas e Literatura", na sua intervenção fez notar que "a filosofia ecléctica e ecuménica que serviu de base à construção da paisagem sintrense [pelo Rei D. Fernando II] foi também a que regeu o período do Romantismo em Sintra", e que agora interessa fazer tudo para não a perder. Fez ainda notar que o Parque da Pena, com os seus 36 monumentos, se encontra cientificamente muito bem documentado, e que foi "graças ao ciclone de 1941" que Mário de Azevedo Gomes produziu a conhecida monografia sobre o Parque da Pena, actualmente ainda a mais rigorosa acerca daquele local. Fez-se ainda referência à possibilidade de reintrodução de fauna no Parque da Pena (Alguém se lembrará das comunidades de corvos que pejavam o local, ou a mais longínqua presença de zebras e burros, ou os póneis com os quais se faziam as deslocações dentro do conjunto da Pena?)
Do conjunto de intervenções registadas retem-se a de João Lacerda Tavares, que explicou que a empresa Parques de Sintra-Monte da Lua se candidatou a um fundo da EFTA, antiga organização europeia de que Portugal já foi membro, no valor de 5 milhões de euros, os quais cobrirão cerca de 60% de um conjunto de obras, nas quais as do Chalet estão incluídas (com base num projecto de recuperação do actual presidente dessa empresa, o Prof. António Lamas). Acrescentou ainda que espera-se agora por uma decisão sobre essa candidatura, a ser comunicada a partir de Janeiro de 2007, tendo sido deixada a ideia de que este fundo, "não se tratando de uma certeza, gera pelo menos uma boa expectativa de financiamento". Ficou menos claro que parte das verbas ficarão afectas em concreto às obras no edifício, ou de onde virá o montante remanescente até integral restauro.
 Foto nr. 2: Debate sobre o Chalet da Condessa d'Edla. © Alagamares (17.11.2006).
Igualmente questionada pelos presentes foi a filosofia a imprimir ao restauro: recuperação pura e simples do existente? Só das fachadas? Porque, como foi dito, dada a simbologia rosacruziana transmitida ao local pelo Rei, qualquer desvirtuamento ao nível dos pormenores na intervenção será um mau serviço e em si não levará em conta a história e espirito do local, que vale não só por si, mas por toda a envolvente, do Palácio à Abegoaria, ou da feteira às tapadas.
O Prof. João Cachado, da Escola Profissional de Recuperação do Património, presente na audiência, também interveio, trazendo algumas memórias para o debate, nomeadamente a da exposição, no edifício do Turismo de Sintra de 1996, sobre o Chalet da Condessa, e das suas aulas com os alunos realizadas no chalet na década de 90, fazendo notar que está disponível na EPRP "um intenso levantamento e estudo do Chalet da Condessa, incluindo material digitalizado", não faltando por isso "informação e tetemunhos para que se faça um restauro atento". Salientou ainda na sua intervenção a necessidade de se realizar uma recuperação integrada do Parque da Pena - englobando a Abegoaria, o Pombal, o Pavilhão D. Luis, etc. -, que a seu ver, nestes últimos anos, fruto do "desleixo institucionalizado", se tem degradado progressivamente.
Dúvidas ainda sobre o destino a dar ao local após o restauro: Museu? Sala de chá? Empreendimento concessionado? Tal parece ainda estar no limbo, e para a necessidade de auscultar a sociedade civil, destinatária do património cultural, se chamou igualmente a atenção. Foi consensual entre os participantes que, seja a um nível orgânico ou outro, se devem evitar novas "disneylândias" sem viabilidade, para não penhorar a recuperação à inevitabilidade de fins que distorçam o espirito do local. Uma coisa é certa: a sociedade civil quer e deve ser ouvida.
 Foto nr. 3: Aspecto do exterior do chalet. © Alagamares (17.11.2006).
Igualmente a necessidade de cuidar das matas e jardins envolventes se fez sentir. A este respeito, Adriana Jones alertou para os actuais riscos de incêndio na envolvente do chalet, devido à proximidade imediata da Tapada do Mouco, a seu ver "um pequeno barril de pólvora" pela grande quantidade de material lenhoso ali presente. Assim, a par do restauro, considerou essencial "a complementaridade da limpeza da mata", para se minimizar o risco de novo fogo.
Foram ainda registadas diversas intervenções do público, em particular a que foi feita pela trineta da Condessa, Ana Luísa Gomes da Costa, muito apreciada pelos presentes, e que sabedora deste encontro não quis deixar de dar um testemunho único e pessoal da memória daquele espaço romântico e repositório botânico invulgar. Não escondendo a sua desilusão face ao actual estado de abandono do chalet, deixou no entanto uma nota de optimismo, recordando a alegria das suas vivências no local, em companhia de seu avô Mário de Azevedo Gomes, e propondo que o chalet seja efectivamente recuperado, porventura com funções também ligadas à botânica.
Da vasta e útil troca de informações, perante uma plateia activa e que muitos contributos trouxe ao debate, saiu sobretudo a vontade de, uma vez este lançado, não o deixar esmorecer, indo a Alagamares, desde agora, procurar acompanhar com regularidade os desenvolvimentos deste processo, apelando aos presentes no encontro, e aos demais que se interessam pelo nosso património, para que se constitua um grupo de companhamento que monitorize todas as acções propulsoras duma recuperação fidedigna, que respeite o espirito do local e as suas memórias, e possa ser devolvida à fruição cultural do conjunto da Pena, com as valências e modalidades de gestão e manutenção que, de forma participada e coerente, se venham a adoptar, seja neste modelo de partilha actual -IPPAR/Monte da Lua - ou noutro que a eficiência ou gestão integrada venham a impor.
 Foto nr. 4: Aspecto do interior do chalet. © Alagamares (17.11.2006).
Se Sintra não existe como hoje a retemos no nosso imaginário sem o Rei-Artista D. Fernando II, um alemão que foi um grande português, percursor da protecção do património em Portugal, igualmente a casa singular que para si e sua segunda esposa erigiu, um mundo dos "Homens no Domínio dos Deuses", e a figura da Condessa d'Edla, como mecenas e vulto da cultura, merecem respeito e admiração. E não é por acaso que ao topo do seu jazigo, no cemitério dos Prazeres, obra de Raul Lino, figura para todo o sempre a Cruz Alta, simbolo do país que um dia mudou o seu destino.
Artigos relacionados:
Missão Chalet da Condessa d'Edla
Relatório da Unesco sobre o Património Mundial de Sintra
Fernando Morais Gomes e Ricardo Carvalho (18.11.2006).
Nota: Veja os albuns de fotografias do actual estado de degradação do chalet aqui . Está também disponível um album da Condessa de Edla aqui.
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