|
É verdade, estou farto deste conservadorismo português, deste medo de tudo, de termos que pedir licença a Bruxelas, a Washington, a Moscovo, a Roma, e agora até a Pequim para fazermos qualquer coisa nossa de genuíno. Este medo de nos reencontrarmos com a nossa história, ou de o fazermos com uma postiça sensibilidade europeia, cheios de pruridos e preconceitos ao falarmos com nossos irmãos de destino da Lusofonia.
Farto, verdadeiramente farto. Lá fizemos uma tentativa ao pedir perdão aos Judeus pelo mal que lhes fizemos no passado, mas isso não se traduziu depois na prática por dizer aos seus descendentes, venham, venham ver este Portugal novo, tragam os vossos saberes, há aqui lugar para vocês. Nunca houve coragem para pedir perdão aos Mouros, ainda continuamos com aqueles complexos “góticos” da Reconquista, não nos podemos misturar com essas raças de infiéis, mas devíamos conseguir dizer-lhes venham, vocês também cabem aqui, tragam a vossa cultura, a vossa fé, não serão perseguidos, precisamos da vossa visão humanista do mundo, da vossa fraternidade de pobres.
E os Índios, alguma vez trouxemos uma representação dos Índios ao nosso Parlamento para lhes explicarmos o que foi a nossa História, por que razões fomos ao seu encontro, pedir-lhes perdão por todos os males e abrirmos agora de mãos dadas uma nova estrada de entendimento, de luz, e de solidariedade? Não, o nosso Parlamento não pede perdão a ninguém, e se o fez em relação aos Judeus tal aconteceu porque Roma assim quis. E os Indianos, não lhes devemos nada? Não poderíamos receber no nosso Parlamento com todas as honras os descendentes desses Indianos, hoje representantes de uma das nações mais importantes na cena global? Não, os nossos deputados cheios de pacóvio e inconsciente nacionalismo não se dignariam a tal, nem à esquerda nem à direita. E os Africanos, não só os da Lusofonia, não terão eles direito a indemnizações por todas os sofrimentos que lhes infligimos, não terão eles direito a serem também recebidos no nosso Parlamento como seres humanos a quem reconhecemos toda a paridade? Não. Para não falar de tantas outras gentes com quem nos cruzámos um dia para primeiro os “descobrirmos” e depois, quase sempre, os explorarmos e roubarmos de toda a dignidade humana? Será que o nosso conservadorismo não nos deixa assumir que hoje somos diferentes, que somos um país democrático, aberto às causas progressistas de defesa dos direitos humanos e de um desenvolvimento sustentável. Irra, estou mesmo farto desta mentalidade retrógrada, mesquinha, provinciana, traiçoeira que não está ao nível da nossa própria História.
Será que não conseguimos sentir remorsos, será que ao fim de tantos séculos somos ainda tão pouco cristãos, e que a religião só nos serve para hipócrita e submissamente fazer apenas o que as hierarquias nos ditam? Estou farto, e como diria o Poeta “não me obriguem a vir para a rua e gritar”. O remorso e a vontade de recompensar aqueles a quem fizemos tanto mal poderiam ser as molas psicológicas impulsionadoras para uma estratégia de aproximação aos novos países de língua portuguesa num mundo global. Mas receio que o orgulho bacoco de tantos “descobridores” da última hora da nossa História impeça que esses sentimentos cristãos e humanos possam desencadear uma nova política de solidariedade. O racionalismo da esquerda que se pretende anti-sentimental, científica e outras balelas em que já ninguém acredita, nem eles próprios, dirá imediatamente que não a estas sugestões, remetendo-as para o plano do “folclorismo”. Quanta cegueira domina a nossa esquerda de cartilha. Mas à direita o deserto de ideias é ainda pior. Aí só contam os cifrões, já os vejo a objectar – mas o que é que lucramos com isso? E eles, em sua curta visão, querem dizer na verdade – o que é que lucramos de imediato, de palpável já amanhã nas nossas contas?
Fico com a sensação que esta nossa Democracia está cada vez mais esvaziada de sentido universal, cumprimos é certo com todas as regras internacionais, somos “bons alunos”, como gostamos de nos definir, para sublinharmos a nossa pequenez, o nosso atraso, e bajularmos assim os poderosos para que ajudem a compor as contas de um Estado que anda completamente à deriva, e só não anda mais porque justamente esses poderosos não têm interesse em abandonar-nos ao nosso destino. Mas que seria de nós se tivéssemos de nos confrontar apenas connosco próprios? Sim, o que seria de nós? Já estávamos, tenho quase a certeza, de novo a viver em ditadura, porque na verdade amamos muito pouco a liberdade, mal a conhecemos e pouco a aprofundamos. Já usufruímos dela quando éramos um colectivo orgânico nalgumas fases da nossa medievalidade, mas hoje ao orgânico sobrepõe-se a frieza do direito. Este, porém, quando na sua aplicação está estrangulado, não passa de um fantasma com que nos vão iludindo aqueles que hoje detêm o poder político e económico.
Quero aqui prestar a minha homenagem a todos os missionários, cooperantes, médicos, professores que hoje em condições dificílimas praticam a solidariedade com os povos irmãos da Lusofonia. E se assim é tão difícil hoje a prática dessa solidariedade é porque falta em absoluto uma estratégia de cooperação enraizada na nossa História comum de países lusófonos. Essa estratégia não poderá nunca ser ditada por Bruxelas, mas tem que sair das nossas cabeças, estou convencido aliás que a Europa acabaria por compreender e aplaudir esse nosso esforço. Já que todo este texto é politicamente incorrecto gostaria de terminar com mais algumas incorrecções. Defendo a criação de uma Aliança Lusófona militar e de mútua defesa englobando todos os nossos países, mas uma Aliança independente da Nato ou de qualquer outro bloco. Uma Aliança Lusófona! Para terminar a última incorrecção. Só quem não está a par das mudanças de rumo estratégicas do Itamaraty desde o consulado de Lula é que pode agora ficar surpreendido com a criação da Universidade Lusófona no Noroeste do Brasil. Aqui deixo uma sugestão: já que o nosso governo tem copiado tantas das políticas sociais de Lula – sem se atrever a ir tão longe como no caso escandaloso, mas de que ninguém fala, do Serviço Nacional de Saúde que deveria englobar também os funcionários públicos, como Lula teve a coragem de fazer, extinguindo por conseguinte a ADSE – poderia também imitá-lo nestas iniciativas lusófonas. Imitem, se não conseguem ser criativos, mas imitem os melhores.
25 de Abril Sempre!
Jorge Telles de Menezes
|